(Reflexão pra todos nós que caminhamos para a velhice, desde o dia em que nascemos)
Quando um ser humano relega ao abandono outro ser humano, por idade ou por achar no outro algum desmerecimento, seja parente ou apenas amigo
[e não falo do abandono de jogar fora num asilo ou numa casa de acolhimento, que isso, as vezes, é até caridade, falo do abandono de visitas, de telefonemas, de cuidados, de palavras de carinho e incentivo, de amor],
ele planta a semente do futuro, e cego, não enxerga o caminho sendo traçado.
Sempre o que abandona caça até achar sua desculpa:
_Ficou magoado com frases que não gostou de ouvir, afinal, o abandonado sempre cobra demais, é babão demais, é pegajoso demais.
_Seu tempo é curto, a vida é dinâmica demais pra se perder tempo com gente que já nem entende seus problemas.
_ O "em questão" não lhe merece mais o respeito, pois se aposentou, saiu do mercado da vida, dos trilhos dos aproveitáveis, não é interessante, quase um invisível.
Ou apenas descartou por ter formado outra família pelo casamento e não precisa da velha, com os amigos velhos incluidos no "pacote abandono", porque, afinal, todos cheiram a mofo mesmo, e duas famílias, [vamos combinar?] fica difícil administrar.
E repete, como um mantra, "agora tenho minha própria família pra cuidar".
Quem está do lado dos "abandonadores" não se dá por vencido, nega o abandono e culpa os abandonados.
Esconde da própria alma o fato em si, não apenas com a desculpa que mais coube no seu caso particular, mas com frases feitas como justificativa.
E o repertório é vasto:
_Até tentei, mas eles são muito chatos.
_Não fui criado de maneira correta, tenho traumas.
_Todas as vezes que insisti em ir lá era só cobrança porque ficava pouco, mas era o que dava pra ficar, então não vou e nem ligo pra não escutar ladainha [esta é a mais comum quando os abandonados são os pais].
_A típica e velha "faço o que posso". O posso aí quer dizer, com todas as letras, nada!
_Ou o esfarrapado "ele não me procura também, não vem me ver", sem entender que quem busca é quem tem forças pra andar, não o exaurido pelo tempo implacável que pega todos no laço, e o mais velho está na descida, cada vez menor, cada vez mais baixo, cada vez mais fraco.
Parece sempre o certo, o correto, o bom da história perante seu círculo.
No fundo nem é culpado, pois acredita na sua verdade, do mais fundo do self, como única.
Os pertencentes a turma quebraram a ferramenta espiritual de olhar a solidão e a necessidade alheia pelo prisma real.
Não sentem piedade, não sentem amor, não sentem saudade, vão esquecendo, aos poucos, aquele ser que um dia fez parte da sua vida, foi peça importante.
E não se perguntam nunca como será que o abandonado sente isso.
Será que ele, o descartado, está com saudade?
Será que ele, o descartado, sente falta por que ainda tem muito amor e não consegue oportunidade pra demonstrar?
Será que ele, o descartado, conseguiu esquecer o tempo de convivência, mesmo que não tenha sido tão pacífica como gostaria e tentou fazer que fosse?
Será que ele, o descartado, chora ao lembrar este período e pensa que morrer seria a solução ideal, uma ajuda talvez, para o problema do que o abandonou, numa espécie de autoflagelação que leva direto para a depressão?
E será que quem abandona tem condições de olhar pra dentro de si e descobrir que, mesmo em núcleos nem tão felizes, com diferenças de pensamentos e conceitos, ninguém do clã merece o abandono por mais que pareça ruim, na sua visão pessoal?
Será que parou pra pensar em como ele reagiria se, quando estivesse com menos força, com mais idade que os ombros pudessem carregar, com doenças que a idade traz se instalando, todos o abandonassem?
Nenhum telefonema, nenhuma visitinha, nenhuma palavra de conforto... Merecesse ele ou não, na opinião da nova tribo de abandonadores.
Geralmente os que abandonam tem uma religião, e cumprem seus deveres como participantes do grupo. Fazem caridade com os velhos e os descartados alheios. Visitam orfanatos, asilos, presidios, hospitais, e saem secando os olhos.
Choram também quando assistem, em filmes-ficção, o abandono descrito cruamente, cruelmente. Muitas vezes se empenham nas causas de abandono ou tortura de animais.
São perfeitamente adaptados a sociedade e suas regras, são exemplos dentro de suas comunidades.
Ninguém consegue ler a alma do abandonador, nem a do abandonado.
Então, que este último tome tenência, sofra calado sem deixar de amar o que se foi pelas esquinas do mundo em nenhum dia da sua vida, afinal, pra ele, a morte está mais perto que a vida.
E o amor ainda é o único sentimento que difere e separa os seres em categoria: A da Luz e a da sombra.
Quem ama tudo desculpa, tudo entende e tudo suporta, até a solidão do abandono por ser considerado um traste chato, cobrador, reclamante, incapaz e ruim.
Desculpa os gritos que lhe são dirigidos, as mentiras mulambentas como justificativa. Desculpa até ser alvo de raiva e da fúria por coisas que tentou dizer, mas ou caiu em ouvidos moucos, ou foi entendido do jeito que mais servisse ao plano B do abandono.
E aí, numa virada perfeita, golpe de mestre, o abandonado passa a ser, exclusivamente e com medalha de honra ao mérito, culpado e causador do próprio abandono.
Este é o quadro do abandono no mundo atual, bem maior do que se pensa. E o do desamor, maior ainda.
Assim são as artimanhas e armadilhas em que se prende o abandonado para aliviar a culpa e continuar posando de boa gente.
Um dia o mundo será formado por "seres humanos" de verdade!
Seres que não precisarão nem de laços de sangue para se saber irmão de todos os outros, onde se ampararão mutuamente.
Talvez não seja pro meu tempo, ainda, esta reforma íntima coletiva, mas torço por ela assim mesmo.
E quiçá nunca me veja incluida na lista dos abandonados, nem da dos que abandonam.
Até agora estou conseguindo me manter a tona, braçadas fracas, mas seguras, Deus no comando.
Prefiro a morte, que esta iguala todos no pó, a desamar alguém, seja família pelo sangue gerado na carne, ou família pelo sangue de Cristo.
Boa velhice a todos nós, porque esta só não chega se o Portal Mágico se abrir antes dela.
[elza fraga]